Vulcanismo da ilha do Pico (Açores): perigos inerentes

zilda terra tavares de melo de frança
Departamento de Geociências da Universidade dos Açores
Email: zfranca@notes.uac.pt
( Continuação )
A consciencialização mundial da necessidade de se intervir na mitigação dos desastres naturais levou as Nações Unidas a considerar os anos 1990-2000 como a Década Internacional para a Redução dos Desastres Naturais (IDNDR). Dentro deste espírito, surge a Década dos Vulcões, tendo como objectivo prioritário o investimento em acções que conduzissem a um melhor conhecimento do seu comportamento, reduzindo, assim, substancialmente os perigos inerentes aos mesmos. Dentro desta filosofia tentou-se avaliar os perigos vulcânicos da ilha do Pico por forma a minimizar os riscos subjacentes a futuras erupções que possam ocorrer nesta ilha. Para a consecução deste objectivo houve que ter a noção exacta dos fenómenos vulcanotectónicos que ao longo do tempo se foram sucedendo e associando e de cujo somatório resultou uma ilha com as características daquela que aqui é focalizada. Neste âmbito, a conjugação de estudos recentes levados a efeito por madeira (1998), Cruz (1997), Nunes et al. (1999a), Nunes (1999) e França (2000) contribuíram para a reconstituição da história eruptiva do Pico, o que constituiu uma peça fundamental para a caracterização dos perigos vulcânicos desta ilha e para o desenvolvimento de modelos de simulação capazes de darem uma resposta eficiente em tempo quase real.
No que concerne à reconstituição da história vulcânica julga-se importante fazer uma abordagem à metodologia que foi seguida e que se consubstanciou em (1) analisar e interpretar os registos históricos das erupções que ocorreram nesta ilha depois do seu povoamento; (2) reconhecer os estilos eruptivos responsáveis pelas formas vulcânicas observáveis; (3) conhecer as características petrológicas e geoquímicas dos produtos emitidos pelos seus vulcões e (4) identificar os processos tectónicos que contribuíram para a sua edificação e os que actualmente a afectam.
Desde o povoamento da ilha do Pico, que ocorreu por meados do séc. XV, há a reportar três erupções subaéreas: a de 1562/64, na Praínha do Norte, a de 1718, com um foco em Santa Luzia e outro em São João e a de 1720, na Silveira (Fig. 4).
Dados históricos recolhidos de diversas fontes, tais como, “Saudades da Terra” do Doutor Gaspar Fructuoso (Ed. Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1978), “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta” de Macedo (1871) e em extractos do “Archivo dos Açores” de Castro (1879, 1882 e 1883), permitiram fazer a retrospectiva que se condensa na tabela I.

Fig.4 – Esboço das escoadas históricas (a encarnado) da ilha do Pico (França
et al., 1995; Cruz et
al., 1995).
Para além das erupções caracterizadas através de dados recolhidos em diversas descrições históricas, Weston (1964) assinalou uma possível erupção submarina ao largo do Cachorro (Pico) no dia 15 de Dezembro de 1963 baseando-se, exclusivamente, em relatos de alguns habitantes daquela ilha e do Faial, que afirmaram ter visto nuvens de vapor naquele local e no facto de os sismógrafos da Horta terem registado tremor vulcânico contínuo durante os dias 12 e 15 de Dezembro de 1963. Este tremor vulcânico, que parece ter-se repetido no princípio de Janeiro de 1964, foi relacionado, por Machado e Forjaz (1965), a um incremento de actividade fumarólica nos Capelinhos. A insuficiência de dados consistentes e, por outro lado, a não concordância destes cientistas relativamente ao fenómeno, conduzem a que se tome esta informação com certa cautela.
Da análise dos dados históricos ressaltam dois aspectos fundamentais que caracterizaram todas as erupções históricas: (1) foram precedidas por actividade sísmica anormal e (2) apresentaram um carácter de baixa a média explosividade. O conhecimento destes parâmetros, aliado aos restantes que a posteriori também serão objecto de análise, mostra-se essencial para a avaliação dos perigos vulcânicos que atempadamente serão abordados.
TABELA I – Caracterização sucinta das erupções históricas da ilha o Pico.
LOCALIZAÇÃO“BOCAS” |
INÍCIO (MÊS/ANO) |
DURAÇÃO
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SINAIS PRECURSORES |
CARACTERÍSTICAS E CONSEQUÊNCIAS |
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CABEÇOS DO MISTÉRIO
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21.09.1562 |
dois anos (1564) |
Sismos durante 1 mês. Término dos mesmos a 17.9.1562 |
I-Formação de 2 rios de lava a partir das 5 “bocas”: 1 para SW e outro para N, que originou a PONTA DO MISTÉRIO (Praínha do Norte) - Fases efusivas. II-Projecção de bombas e cinzas - Fases explosivas. III-Os piroclastos de menores dimensões atingem as ilhas de São Jorge e Faial. |
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LOMBA DO FOGO
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1.02.1718 (6 horas da manhã) |
Duas semanas |
Ruídos e sismos |
I-Saída, da maior cratera de um alinhamento de 7, de lava que se difundiu entre Santa Luzia e Bandeiras, originando o “Mistério de Santa Luzia” . As lavas atingiram o mar, entre o Lagido e o porto do Cachorro, em menos de 6 horas - Fases efusivas. II-Projecção de cinzas, que atingem São Mateus - Fases explosivas. III-Abertura de fendas em São Mateus. |
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A - CABEÇO DE CIMA
SÃO JOÃO
B – ERUPÇÃO SUBMARINA |
2.02.1718
11.02.1718 |
273/349 dias (termina no dia 15.01.1719) |
Ruídos e sismos
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I-Formação de um extenso “mistério”, entre as freguesias da Terra do Pão e Companhia de Cima (São João), resultante das lavas provenientes de 6 caudalosos rios de lava, 2 dos quais atingiram o mar - Fases efusivas. II-Destruição da povoação de São João pelas lavas oriundas do Cabeço de Cima. III-Alternância de fases explosivas, com projecção de piroclastos. IV-Emanações gasosas. V-Registam-se 2 mortes relacionadas com esta erupção, mas exclusivamente por descuido das vítimas. VI-A uma distância de cerca de 110 m e 88m de profundidade assinala-se a ocorrência de uma erupção submarina da qual resulta a formação de um promontório e a projecção de piroclastos para o interior da ilha. |
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CABEÇOS DO FOGO (Zona do Cabeço do Soldão) |
10.07.1720 |
18.12.1720 |
No dia anterior ocorreram sismos de grande intensidade. |
I-Saída, de 4 ou 5 crateras, de rios de lava - Fases efusivas. II- Projecção predominante de cinzas que provocam a morte de inúmeros animais e a destruição de pomares, pastagens e searas. III-A ilha de São Jorge é atingida pelas cinzas. |
( A seguir: Formas vulcânicas observáveis e estilos eruptivos associados )