NO DIA DA MÃE

 

 Para ti, Mãe 

 Mesmo sabendo que todos os dias são dias da Mãe e que em qualquer dia te posso dizer o quanto te amo e sofro por saber que vives só, achei apropriado te escrever na época em que quase todo o Mundo celebra o dia da Mãe.
Em tempos, julguei que não me amavas, pela tua maneira de ser. Hoje, peço-te desculpa por ter posto em causa o teu amor. Sei que me amas e ter duvidado de ti faz-me sentir injusta, ingrata, talvez até um pouco rebaixada por mim própria: como pude duvidar do teu amor, sendo eu mãe, tal como tu? Porém, digo-te que as dores da alma nos fazem vacilar sobre tudo, até mesmo o amor das nossas mães. Um amor sagrado, sem preço, sem explicação, sem tamanho, enfim, o maior amor do mundo.
Hoje consigo entrar dentro do teu amor escondido: digo escondido porque não o mostravas e eu não sabia que, lá no fundo do teu ser, ele existia, pois é preciso experiência de vida para enxergarmos as coisas ocultadas. Principalmente, para uma criança, ou adolescente, que sente fome de carinho, sei que nunca foste carinhosa, mas também sei que me amavas à tua maneira. Sei que construíste esse amor com as melhores “pedras” que tinhas.
Sinto um arrocho no peito ao recordar as tuas palavras, quando me falavas do teu amor por mim e eu não entendia, quando tu, ainda era eu uma bebé, me agasalhavas em três ou quatro cobertores e perguntavas à vizinha se ela achava ser o suficiente. Quando tu, já doente, ficavas sentada ao meu lado toda a noite, com medo de não chegares a tempo para me ajudares quando me davam os ataques de tosse provocados pela bronquite. Quando, já crescida, me vestias e calçavas com amor, para eu não ficar doente, enquanto as outras crianças andavam pelos caminhos maltrapilhos e descalços. Mas tu, não me deixavas andar nas ruas –“porque as meninas não brincam no caminho”. Fazendo-me sentir inferior às outras crianças e pensar que as outras mães amavam os filhos mais do que tu me amavas, coisas de criança insegura, por nunca ter recebido aquele abraço, ou beijo de ternura. Mesmo assim sei que me amavas e amas.
Foi esse sentimento de insegurança, de inferioridade, que mesmo já sendo eu, mulher e mãe, afectou-me a vida, Mãe. Todavia, sei que não foi isso que desejaste para mim. Apenas aconteceu. As coisas da alma são complicadas, o amor como qualquer outra coisa, quando é de mais, ou mal controlado, sufoca-nos, tirando-nos o fôlego, é capaz de matar. Digo-o por experiência própria. Acho que também fui um pouco como tu, mãe-coruja, por isso hoje, te compreendo melhor. Afinal, o amor de mãe não é assim tão diferente entre uma mãe e outra.
Quando espero o teu telefonema aos domingos de manhã, fico olhando o relógio e contando os minutos. Por vezes atrasaste e eu fico-me perguntando o que terá acontecido, até que resolvo telefonar-te. Quando me deixas mensagem e te telefono, encontro o aparelho desligado, quebras a ligação de propósito para não ser eu a ligar e a gastar dinheiro, preferes voltar a telefonar. Mãe, isso também é amor!
Ficamos conversando por meia hora, perguntas-me como estou, como vão os meus filhos e neta, contas-me as novidades da terra, principalmente das pessoas que morreram. Já foram tantas desde que daí saí, Mãe. Dizes-me que rezas por nós todos, que quando chega à noite sentes uma solidão imensa e que choras. Eu fico escutando tudo isto e chorando também. Choro devagarinho para tu não ouvires, choro só para mim, para não te fazer sofrer ainda mais.
Quando a Ilda me telefonou a dizer que havia perdido a sua mãe, fiquei triste, chorámos as duas. Após falarmos, relembrei uma frase dita por ela, quando o meu pai faleceu -“Amiga, agora temos algo mais em comum, somos as duas órfãs de pai”- E agora amiga, quando será que partilharemos a outra metade do pão da orfandade? O tempo o dirá.
Por favor Mãe, não vás ainda, não me deixes o domingo todo olhando o relógio e contando os minutos, não me faças telefonar e ouvir a telefonista dizer -“ o número que ligou já não está mais em serviço”. Como temo esse momento!
Até domingo Mãe, vou esperar sentada na cadeira da sala, ao lado da mesinha do telefone, pelo teu telefonema. Vamos conversar sobre as coisas de que tu gostas, enquanto podemos, vamos falar das mães, no nosso dia.

 

Candeias Leal
candeiasleal@hotmail.com

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