( Continuação )

Aspectos gerais sobre a economia.
 

Em consonância com os desígnios da coroa, o Faial insere-se no quadro económico traçado para as ilhas açorianas. Apesar da sua reduzida dimensão, a ilha dispunha de condições de  clima e de solo adequadas a uma prática agrícola orientada para produções capazes de assegurarem a subsistência dos seus habitantes, e, ao mesmo tempo, de garantir excedentes exportáveis para suprir carências sentidas pelo reino ou para corresponder a uma procura externa propiciadora de trocas, nomeadamente por manufacturas e géneros de maior necessidade para a população da ilha. O pastel –  a que não será alheia a presença da gente da Flandres –  os cereais e o linho contam-se entre as culturas que a ilha desde cedo desenvolve, embora, no que respeita aos cereais, os anos de prosperidade se intercalem com períodos de escassez e de crise. Com o correr do tempo, a par do declínio do pastel no século XVII, vamos assistir a uma gradual insuficiência na produção de grãos frumentários que os compromissos de abastecimento às populações da zona fronteira da ilha do Pico, mais agrava. Na transição do século XVIII para o século XIX, a cultura da laranja alcança expressão com interesse assinalável, alimentando um pequeno fluxo de comércio, sobretudo para os Estados Unidos da América. Todavia, a ocorrência de pragas afectando todo o arquipélago, destruiu os pomares tornando insignificante a sua produção a partir de meados de Oitocentos.

A criação de gado ocupa lugar relevante na exploração económica da ilha, até pelo seu concurso no trabalho dos campos e respectiva fertilização. Não menos importante é a manutenção de uma reserva de gado para acorrer à frequente satisfação das necessidades da navegação em escala de refresco pela baía da Horta.

Associada à excelência das condições de abrigo do porto faialense e à situação de que desfruta na confluência das rotas que cruzam o Atlântico, o Faial ocupa, com visibilidade crescente, posição de relevo no trato do comércio internacional graças à sua proximidade da ilha do Pico e às insuperáveis dificuldades que esta ilha experimenta para escoamento de um  produto de excelência como é o “verdelho”. A afirmação da relevância do ancoradouro faialense ganha projecção à medida que se verifica o declínio da rota do Cabo e a marginalização do porto de Angra que a Provedoria das Armadas, instituída no século XVI, projectara no contexto do Atlântico. Escala privilegiada da navegação oriunda das Américas, o porto da Horta reforça a sua importância como entreposto indispensável nas trocas do comércio, dispondo de uma valiosa moeda de troca representada pelos milhares de pipas de vinho de qualidade que atravessam o canal que separa as duas ilhas vizinhas. O Norte da Europa e as possessões inglesas nas Antilhas, nos séculos XVIII e XIX, contam-se entre os principais mercados consumidores do apreciado “verdelho”. Em contrapartida, do Brasil, da Terra Nova, dos Estados Unidos da América e da Inglaterra, chegam ao Faial mercadorias e géneros da mais diversificada natureza.

Atraídos pelas oportunidades de negócio, mercadores e negociantes estrangeiros fixam-se no burgo faialense, animando-o e emprestando-lhe a feição cosmopolita que se tornaria, com o rolar do tempo, como que o timbre da própria ilha. O porto da Horta, dando lugar à fixação de estrangeiros com conhecimento dos mecanismos do comércio, experiência internacional e visão larga no domínio dos negócios, torna-se em  verdadeiro elemento estruturante da vida faialense em todas as suas vertentes, ao garantir uma enorme permeabilidade à inovação e criando condições de formação de uma elite de vanguarda nesta parcela do Atlântico. Viajantes, homens de ciência e aventureiros, como testemunha a literatura de viagens do século XIX que ao Faial se refere, sublinham da forma mais encomiástica esta imagem de uma Horta mercantil e culta.

                   ( A seguir: Uma Matriz Cultural Portuguesa )

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