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Sobre José Martins Garcia escreveu
David Mourão-Ferreira: o seu nome “deveria ser hoje saudado como o do
escritor mais completo e mais complexo que no último decénio entre nós
se revelou; (...) com igual mestria tanto abrange os registos da
mistificação narrativa como os da exegese crítica, tanto os da
desmistificação satírica como os da transfiguração telúrica, e que sem
dúvida não encontra paralelo, pela convergência e concentração de todos
estes vectores, na produção de qualquer outro seu coetâneo” (Jornal
Signo, 1987/9/30). As afirmações de Mourão-Ferreira reenviam às
diferentes facetas de um escritor plural, suficientemente inquieto e
versátil para circular entre modos e géneros discursivos e
diversificar-se ainda no interior de cada um deles: romancista, contista
e poeta, ensaísta e crítico, dramaturgo, mas também o cronista que uma
parte do seu último livro (quase) teóricos e malditos (1999)
põe em evidência, exactamente naqueles textos iniciais que assinalam uma
reflexão, um comentário digressivo a partir de uma circunstância do
quotidiano, filtrada e escalpelizada à luz da formação literária e
linguística do autor referência esta que nos reenvia ao seu percurso
profissional e académico.
José Martins Garcia nasceu na Criação
Velha, Ilha do Pico, a 17 de Fevereiro de 1941, tendo feito uma parte
dos seus estudos liceais na cidade da Horta. Em Lisboa, licenciou-se em
Filologia Românica pela Faculdade de Letras, onde viria a leccionar
entre 1971 e 1977. Chamado a cumprir serviço militar em 1965, foi
mobilizado para a Guiné-Bissau, aí permanecendo de 1966 a 1968,
experiência que se projecta literariamente em Lugar de Massacre
(1975), um dos primeiros romances portugueses a abordar a guerra
colonial, numa perspectiva paranóica e demencial; essa experiência
acabaria por pontuar, sob variadas formas e em diferentes
circunstâncias, a sua obra literária.
Entre 1969 e 1971 foi leitor de
Português na Universidade Católica de Paris, e em 1979 rumaria aos
Estados Unidos como professor convidado da Brown University (Providence),
aí permanecendo até 1984; o rasto desse tempo americano é detectável em
Imitação da Morte (1982) e no belíssimo e devastador livro de
poemas Temporal (1986).
De seguida, ingressou na Universidade
dos Açores, em cujos planos de estudo das licenciaturas introduziu a
cadeira de Literatura e Cultura Açorianas e onde se doutorou com uma
tese sobre Fernando Pessoa; nesta Universidade terminou a sua carreira
académica como Professor Catedrático, tendo ainda ocupado o cargo de
Vice-Reitor e dirigido a revista Arquipélago, do Departamento
de Línguas e Literaturas Modernas. Faleceu em Ponta Delgada a 4 de
Novembro de 2002.
Pela sua quantidade, mas
principalmente pela sua variedade e complexidade, só muito dificilmente
a obra de José Martins Garcia se deixará apreender nas malhas de uma
visão unificadora, embora possamos detectar no interior da lírica e da
narrativa, a confluência de determinados motivos e temas recorrentes;
mas até mesmo no campo do ensaísmo a diversidade poderá ser tida como um
dos traços relevantes.
É certo e reconhecido que a etiqueta
nemesiana se terá colado demasiado à pele do seu labor científico,
tendendo-se por vezes, e de forma abusiva, a atribuir-lhe um lugar de
quase absoluta exclusividade no âmbito do seu ensaísmo. Para lá do
relevo de que, obviamente, os estudos sobre Nemésio desfrutam em José
Martins Garcia, isso será talvez o preço a pagar pelo seu pioneirismo,
mas também pela “ousadia” do desalinhamento teórico que significava
entrar nos domínios da biografia e articular a obra e o homem ,
num tempo ainda marcado pela enchente estruturalista; em qualquer caso,
a componente biográfica é apenas uma parte, e muito reduzida, dos
conteúdos de Vitorino Nemésio, a obra e o homem (de 1978 e
reeditado com modificações em 1988; Vitorino Nemésio – à luz do
Verbo , que recebeu o Prémio Eça de Queirós, da Câmara Municipal de
Lisboa). Além disso, quem se der ao trabalho de consultar a obra
ensaística de José Martins Garcia há-de encontrar aí textos sobre
autores tão diversos como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Ana
Haterly, José Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro ou José Luandino
Vieira, por exemplo; e não poderá deixar de considerar os longos e
sistematizadores estudos dedicados à narrativa de David Mourão-Ferreira
e à poesia de Fernando Pessoa, neste último caso um trabalho redigido
nos Estados Unidos, posteriormente apresentado como dissertação de
doutoramento, e que viria a destacar-se pelos seus aspectos inovadores
na abordagem retórica dos heterónimos (Fernando Pessoa: “coração
despedaçado” , 1985).
No universo ensaístico de José Martins
Garcia, vamos ainda encontrar algumas das mais lúcidas e penetrantes
abordagens da açorianidade literária; nos textos sobre Nemésio,
naturalmente, mas ainda em estudos sobre o simbolista Roberto de
Mesquita ou em ensaios de conjunto sobre a literatura açoriana, a
perspicácia e a sensibilidade crítica de José Martins Garcia
deixaram-nos um imprescindível contributo para a compreensão daquilo que
constitui a mundividência do homem açoriano tal como ela se exprime no
conjunto de obras que constituem a literatura açoriana. A chave para a
leitura de uma boa parte da ficção narrativa de José Martins Garcia pode
encontrar-se no seu livro Invocação a um Poeta e outros poemas
(1984) e num título como “Signo Atlântico”, em que a viagem e a partida
surgem sob um desígnio de fatalidade e de destino inevitável e
constituem o traço indelével da condição insular, e da sua expressão
literária. Particularmente em romances como A Fome (1978),
Imitação da Morte ou Contrabando Original (1987) encontramos
personagens cuja radicação insular as atira para um percurso de
dispersão, de errância e, no limite, de perdição; fugindo ao universo
concentracionário da ilha, elas farão a experiência da
desterritorialízação, do exílio absoluto e, olhando para si próprias,
descobrirão os infernos íntimos que as atormentam e projectarão essa
mesma imagem sobre o mundo envolvente. Narrativas de partida
essas três, elas têm o seu contraponto em Memória da Terra
(1990), uma narrativa de sentido inverso, cujo narrador vem à ilha na
tentativa de reconstituir a imagem e o percurso do irmão desaparecido e,
num registo entre o policial difuso e o diário, deixa o retrato de um
tempo cinzento, os anos cinquenta, e de uma comunidade fechada “na
clausura do cabo do mundo”.
A Fome, considerado um dos
(poucos) grandes romances açorianos posteriores a Mau Tempo no Canal
, de Vitorino Nemésio, poderá entender-se essencialmente como um
romance de personagem, se atendermos a que aí se textualiza o percurso
do jovem estudante António Cordeiro, narrador da sua própria
experiência, uma experiência de iniciação na vida e nos seus mistérios,
seja ela a do “mundo abreviado” da ilha (Pico, Faial), seja a do grande
mundo, de que Lisboa é apenas a parte do todo (França, Estados Unidos em
narrativas posteriores). Daí, em primeiro lugar, a forte dramatização da
condição insular, manifesta na tensão entre a permanência
petrificante, o sentir-se preso à ilha, às suas fomes materiais, e o
chamamento, o apelo do desconhecido, as fomes de distância, que
diferentes sinais exacerbam.
Todavia, e a um outro nível, o
percurso individual é indissociável de um percurso histórico e
colectivo, é a concretização individual de um destino que se projecta
sobre a personagem como manifestação de uma fatalidade histórica
colectiva. O início da narração convoca explicitamente uma fonte
documental (o texto do cronista Frei Diogo das Chagas sobre o povoamento
do Pico por Fernando Álvares Evangelho) e a que se seguirão outras de
diferentes autores, entre eles Gaspar Frutuoso e, particularmente
significativo, o seiscentista António Cordeiro, autor da História
Insulana das Ilhas a Portugal Sujeitas; mas a citação é aqui uma
apropriação do texto alheio, uma incorporação no próprio discurso,
abolindo o tempo real e transformando o narrador numa personagem
transtemporal, em perfeita consonância com a auto-designada “estética da
transmigração” que lhe permite chamar-se sucessivamente António Cordeiro
(nome também de navio e do narrador-protagonista de Imitação da
Morte ), Fernando Álvares Evangelho e Constantino, caçador de
baleias no século XIX. Este processo de condensação temporal
proporciona, por um lado, a “memória antiga” que o narrador em si
congrega, uma memória de raivas, espezinhamentos, abandono, fomes,
solidão e desespero, mas assinala, por outro, a consciência da memória
em que assenta a literatura.
Numa outra perspectiva, convém ainda
chamar atenção para uma das mais imediatas vertentes da obra de José
Martins Garcia, a sua dimensão satírica – projecção de uma determinada
visão do mundo e de um relacionamento distanciado e crítico em relação a
ele e às suas normas e condutas, e que, em termos literários, se
organiza com base em procedimentos linguísticos e retóricos
diversificados. A sátira escolhe os seus alvos, as suas vítimas, e
joga-se toda na inventiva e nos mecanismos da linguagem que, da
ampliação à atenuação, proporcionam o espelho deformante (côncavo ou
convexo) em que o mundo poderá olhar-se na sua imagem ora ridícula, ora
burlesca, (e eventualmente corrigir-se). Processos como a citação, a
paródia, a alusão, a antífrase, o sarcasmo com o seu o pendor
hiperbolizante sucedem-se em José Martins Garcia, construindo uma
linguagem que alterna a violência com a expressão subtil, desconstruindo
sentidos fossilizados e questionando o poder da própria linguagem ou a
linguagem enquanto poder e a fragilidade da sua própria convencional
idade. Esses procedimentos servem o propósito satírico e nas suas
diferentes modulações instauram o relativismo, a começar pelo da
linguagem, anulam as verdades absolutas e, para lá do maniqueísmo do
lamento trágico ou da exaltação épica, abrem espaço para uma coisa
outra, o riso e o seu forte poder desestabilizador e libertador também:
“satirizar a loucura que se pretende lúcida, rir do poder e das suas
vaidades... Eu creio que esta última atitude é que representa a
verdadeira solidariedade para com todos os que sofreram os pontapés dos
tirantes, dos ditadores. Não é cantarolando amor que, efectivamente, se
ama. Ama-se melhor quando se resiste e muito melhor quando se resiste
desmistificando o opressor” –confessou o autor em entrevista dada por
ocasião da saída de Memória da Terra (veja-se Estante –
jornal de informação editorial , n.° l, Vega, 1991).
Uma leitura atenta às suas relações
transtextuais não deixará de verificar o diálogo que a escrita de José
Martins Garcia estabelece com a tradição literária açoriana, que ele tão
bem conhecia e da qual expressamente se reclamava herdeiro e
participante, em entrevista dada em 1986. Mas em termos gerais o que
esta escrita opera é uma reversão ou mudança de registo que, sendo
também de perspectiva, institui um outro ângulo de visão na configuração
literária do universo insular: em vez daquilo a que Umberto Eco chamaria
uma “estética da consolação”, que concilia os contrários e os conflitos,
dilui a memória das feridas e das dores, envolvendo tudo num apaziguador
tecido de melancolia e nostalgia, a escrita de José Martins Garcia
exacerba essa memória, revolve-a no seu desespero e na sua angústia, nas
suas misérias também, num registo múltiplo que passa pela ironia, pelo
burlesco e mesmo pelo grotesco, para dizer que, ao contrário do que
afirma uma personagem em Gente Feliz com Lágrimas , de João de
Melo, nenhuma distância ou afastamento, nenhum sofrimento chegará para
“absolver as paisagens malditas”.
Desde há alguns anos, a obra de José
Martins Garcia tem vindo a ser objecto de estudo sistemático e
aprofundado por parte de Luiz Antonio de Assis Brasil, romancista e
Professor Titular na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, Brasil, onde, aliás, tem orientado dissertações de mestrado e
doutoramento sobre a Literatura Açoriana e, em particular, sobre José
Martins Garcia. Um desses trabalhos, já publicado em Portugal, é da
autoria de Lúcia Helena Marques Ribeiro e intitula-se José Martins
Garcia – A Questão da Identidade da Terra e a Ideia de Perma nência em
«Contrabando Original» [1998, Lisboa, Salamandra]. No seguimento da
teorização de Assis Brasil, a autora explora as potencialidades de uma
leitura focalizada na permanência (e no seu carácter
petrificante) enquanto princípio organizador (ou desorganizador?) do
mundo naquele romance – princípio que pode igualmente detectar-se no
resto da sua obra, até na lírica, pense-se, por exemplo, no seu último
livro de poemas, No Crescer dos Dias (1996), e na incidência
dos mecanismos retóricos, de combinatória e repetição, que servem a
expressão de uma mesmidade sufocante. Ainda aqui, esta
permanência poderá constituir a (re)versão paródica do motivo do «tempo
suspenso», que atravessa alguma literatura açoriana e muito do olhar
exterior sobre os Açores numa perspectiva a-histórica e bucólica,
incapaz de levar em linha de conta mesmo aquele pouco de suor que
Nemésio achava necessário para temperar o mundo adâmico insular.
Ponta Delgada, Outubro de 2003
Obras referidas no texto:
(1975), Lugar de Massacre .
Lisboa, Afrodite. (1978), Vitorino Nemésio , a obra e o
homem . Lisboa, Arcádia. (1978), A Fome. Lisboa, Afrodite.
(1982), Imitação da Morte. Lisboa, Moraes. (1984),
Invocação a um Poeta e outros poemas . Angra do Heroísmo,
Secretaria Regional da Educação e Cultura. (1985), Fernando Pessoa:
“coração despedaçado” . Ponta Delgada, Universidade dos Açores.
(1986), Temporal. Providence, Gávea Brown. (1987),
Contrabando Original. Lisboa, Vega. (1988), Vitorino Nemésio –
à luz do Verbo. Lisboa, Vega. (1990), Memória da Terra .
Lisboa, Vega. (1996), No Crescer dos Dias. Lisboa, Salamandra.
(1999), (quase) teóricos e malditos. Lisboa, Salamandra.
Outras obras de referência do autor:
Ensaio: (1987),
Para uma Literatura Açoriana . Ponta Delgada, Universidade dos
Açores. (1987), David Mourão-Ferreira/ /Narrador . Lisboa,
Vega. (1995), Exercício da Crítica. Lisboa, Salamandra.
Conto: (1978), Receitas para Fritar a Humanidade .
Lisboa, Edições Montanha. (1979), Morrer Devagar. Lisboa,
Arcádia. (1987), Contos Infernais . Ponta Delgada, Brumarte.
(1992), Katafàraum Ressurrecto. S.I., M. Garcia.
Teatro: (1987), Domiciano, Angra do Heroísmo, Direcção
Regional de Assuntos Culturais (Prémio Armando Côrtes-Rodrigues, da SREC).
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