PELOS SANTOS POPULARES, NA ILHA DO PICO...

 

Santos e sentimentos

 Hoje ao visitar algumas das fotos de amigos no Flickr, fiquei emocionada, o que há muito não acontecia, e deu-me vontade de chorar. Julgo que sentir um pouco de emoção nos faz bem. Dentro de nós, existem várias personalidades que nos acompanham pela vida fora, mas que, por uma razão qualquer, não sabemos qual, escondem-se em algum lugar. É preciso emoção - tristeza, rancor, alegria, dor, enfim, sentimentos profundos -, para as reencontrar.
Foram as fotos do Rodrigo e da Lina que fizeram com que abrisse esta página no computador e voltasse a escrever. Coisa que raramente me ocorre nos últimos tempos. O Rodrigo fez-me reconhecer quão importantes são os nossos avós, a Lina, a minha infância e os festejos dos Santos populares na minha terra natal.
Outro dia, quando mexia o arroz doce, veio-me à mente o meu avô materno e a festa de São Pedro na minha freguesia, na Candelária ilha do Pico Açores. O arroz doce era a tradição imperial dessa festa. Em todas as casas, fossem elas de pessoas ricas ou pobres, ele era servido. No arraial, eram arrematados os pratos deste doce tão gostoso, ofertados pelos paroquianos, e o dinheiro angariado servia para ajudar às despesas da festa.
                 
                                                                     Foto de Prof. Brandão
Ora, para mim, o São Pedro tinha um sabor exclusivo. O meu avô António Pereira da Rosa era mestre na feitura do arroz e, na manhã do dia festivo, passava pelas casas das filhas para avaliar os seus esmeros culinários. O arroz só ficava pronto depois de ele mexer um pouco o doce de cada uma delas, dando a sua opinião. Para mim, o especial não era o meu avô tocar o arroz mas sim a presença dele na nossa casa. Senti saudades desses tempos - memórias adocicadas - em que bastava a comparência dos avós para que os netos se sentissem felizes. Algo que foi negado aos meus filhos...
Pelo São João não havia festividades na minha freguesia, porém, fazíamos a fogueira na noite anterior. Ateava-se com louro, mato e alecrim. Fazer a fogueira era divertido, contudo, ir aos baldios apanhar os ingredientes não o era menos. Saíamos de manhã cedo, umas vezes em grupo, outras apenas acompanhadas das nossas mães. O louro e o mato eram cortados nos terrenos dos nossos pais, faziam-se os molhos, amarravam-se com uma corda e acarretavam-se à cabeça. Nem todos tinham alecrim, por isso pedia-se um galhinho a quem o tinha.
Na véspera de São João, as crianças e os adolescentes saíam para a rua ao cair da noite para dar início às fogueiras. Primeiro buscava-se algo seco para o fogo pegar, depois ia-se pondo um galho de cada vez para que este não morresse. O louro era importante pela estralada que fazia, o mato pelo fumo, e o alecrim pelo cheiro.
                       
                                                                          Foto de C.Leal
Após atearmos a nossa fogueira, saíamos rua abaixo, ou rua acima, para contemplar as dos outros, comentar qual a maior, dar saltos sobre o fogo, isto para os mais corajosos. As moças conheciam alguns truques de adivinhação para saberem com quem iriam casar. Um deles ainda me lembro: apanhava-se um caracol, colocava-se em cima de um pano preto e tapava-se de maneira que o animal não saísse de lá. Ele, com o seu rasto, devia fazer a primeira letra do nome da pessoa com quem casaríamos. De manhã lá íamos todas ver, por vezes havia alguns rabiscos, outras vezes, o animal conseguia escapar e nada “escrevia” no pano preto, fazendo com que ficássemos desiludidas até ao próximo ano.
O Santo António, não me lembro de ser festejado pelo tempo dos Santos Populares, fazia-se sim, uma grande festa no lugar do Monte, onde o santo era o padroeiro, no terceiro domingo de Agosto, e o arroz doce também era o doce típico do arraial.
Os sentimentos não morrem dentro de nós. Podem esconder-se por algum tempo, todavia, lá vem um dia em que reminiscências nos fazem revivê-los, com a intensidade de outrora, mas talvez mais apreciados. Quando somos crianças ou adolescentes não apreciamos o valor desse sentir. Voltar a sentir, é algo especial, é o encontro com todas as nossas personalidades que, por sinal, continuam vivas dentro de nós.

 
   Candeias Leal  
( Exclusivo para a "CASA DO TRIÂNGULO" ) Junho de 2008

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