Flor de Maio
 

 Em Outubro de 2007, fiquei sabendo que vinhas em viagem, meu Anjo;

  A 26 de Maio de 2008, chegaste minha Flor!

 Desde aquela quarta-feira de Outubro que quero falar contigo, Amor. Quero contar-te uma estória, porém, sinto-me vazia, não encontro as palavras certas, aquelas palavras que só se dizem aos anjos, as palavras que saem da alma, que não são apenas ouvidas, mas sim, também sentidas. Julgo que deixei de sentir essas maravilhosas palavras mas, mesmo assim, vou tentar.
Vavó sente-se injusta contigo minha Flor; faltavam mais ou menos dois meses para cá chegares e ainda não te tinha dito nada; ou talvez dissesse, mas não confiei essas palavras ao papel. Sim, foi isso Amor, estava sem apetência para escrever. Mesmo assim vou tentar porque amo-te tanto como amo a Ruby, a tua irmã, a menina que fez com que escrevesse “Mais uma razão”. Nesse tempo vavó ainda tinha algumas palavras no guarda-roupa; hoje sente-se despida delas.
Vou contar-te como vavó ficou sabendo que tu já vinhas em viagem. Foi naquela quarta-feira de Outubro de 2007. Vavó acabava de chegar do pinhal de Smooth Rock Falls, a Ruby e a mamã vieram-me visitar. Ora, a vavó, quando está perto da tua irmã, não vê mais nada a não ser ela, mas naquela quarta-feira notou algo diferente na tua mamã. Ela aninhou-se no sofá e ficou ali muito sossegada, vavó perguntou-lhe se estava doente, disse-me que não, apenas sentia-se cansada.
Vavó, não lhe disse nada, minha Flor, mas algo me dizia que tu talvez já vinhas em viagem, uma viagem longa meu Anjo, nove meses para quem espera é muito, estas viagens sempre foram e sempre serão assim, longas e cansativas, Amor. Um dia saberás como elas são, tu serás mãe, porque ser mãe, é um bálsamo para todas as mulheres; depois da espera longa e cansativa, o maravilhoso dia chega, esse dia é sagrado, inesquecível, o dia mais feliz nas nossas vidas, minha Linda.
Após esse pressentimento, vavó ficou sem jeito, sem saber o que dizer ou fazer, abraçou a Ruby e disse-lhe: - mamã vai ter outro bebé, talvez uma menina para brincar contigo. Vavó gostava que fosses menina pelo facto da tia Marla sentir-se só por não ter tido uma irmã. Mamã, também preferia uma menina, acho que Deus nos ouviu, mandando-te para seres a companheira da Ruby e ela a tua, irmãs e amigas, esperamos, para sempre.
Vavó adora a casa no terreno dos pinheiros, porém, às vezes sente-se triste: gostaria de ter estado perto da mamã, do “dada” e da Ruby quando tu chegasses. Queria pegar-te, aconchegar-te ao meu peito e ficar sentindo esse calor de Anjo, um calor que nos dá conforto, contudo não aconteceu, Vavó só esteve aí no fim de Maio, já tinhas três dias.
Quando Vavó anda podando os pinheiros e encontra uns mais pequeninos pensa em vocês; poda-os com amor, para eles crescerem bonitos e vocês brincarem à volta deles, ou então para serem cortados e fazer lenha para aquecer a casa onde vocês vão dormir. A casa aquecida com lenha tem um calor diferente, talvez mais benéfico, e tem um cheiro agradável, o óleo aquece, mas não tem aquele aroma saudável.
Amor, porque demoraste? Estávamos todos te esperando minha Flor. Falava com a mamã e o “dada” todos os dias, eles estavam cansados de esperar, principalmente a mamã que carregava o maior peso. Até o tio Fernando, que estava de passagem na ilha do Pico, telefonava para saber se já tinhas chegado. Como vês, minha Flor, todos te esperavam, todos te amam.
Chegaste minha Flor, um pouco atrasada, ou talvez no tempo certo, nós é que estávamos impacientes e queríamos que chegasses antes do tempo.
Quando pus o título nesta carta, não sabia que o teu nome seria nome de flor, apenas aconteceu. Coincidências da vida sem explicação.
Chegaste a este Mundo, Violet, flor de Maio, fruto do meu fruto, bebé de hoje, mulher de amanhã. Chegaste ao Mundo da falsidade, da injustiça, um Mundo que devia ser um paraíso, mas a maldade humana fez dele um inferno. Mas sei que neste inferno poderás encontrar o paraíso, porque ele existe em certos lugares. Procura-o Amor; mas procura-o na simplicidade e não na soberba.

 (*) vavó: variante açoriana de vovó

 P.S. Neste domingo, dia 15 de Junho, quase todo o Mundo celebra o Dia do Pai. Mesmo sabendo que quem é pai, é-o todos os dias, aproveito para desejar um feliz Dia do Pai para todos, em especial para o meu filho Décio, que me tem dado tanta alegria em ser um pai de verdade.

 Candeias Leal