Vulcanismo da ilha do Pico (Açores): perigos inerentes

                                                                            
                                                   
zilda terra tavares de melo de frança

Departamento de Geociências da Universidade dos Açores

Email: zfranca@notes.uac.pt

Resumo:

A avaliação dos perigos vulcânicos existentes na ilha do Pico alicerçou-se no conhecimento da sua história vulcânica que foi possível reconstituir, essencialmente, através da identificação (1) dos processos tectónicos que contribuiram para a sua edificação; (2) dos estilos eruptivos responsáveis pela formas vulcânicas observáveis e (3) das características petrológicas e geoquímicas dos produtos emitidos pelos seus vulcões, bem como pelas descrições históricas das erupções que ocorreram nesta ilha depois do seu povoamento. Dados de campo e de natureza petrológica e geoquímica são indiciadores de que, à semelhança do que ocorreu no passado, futuras erupções na ilha do Pico serão predominantemente dos tipos havaiano e estromboliano, caracterizadas por uma baixa a média explosividade. De entre os possíveis perigos vulcânicos a que a ilha do Pico pode estar sujeita (escoadas lávicas basálticas s.l., projecções balísticas, dispersão e queda de piroclastos, gases vulcânicos, sismos vulcânicos, lahars, colapso do edifício vulcânico central com possível tsunami associado e actividade freatomagmática) indubitavelmente os que oferecem um maior risco para a sua população estão directamente relacionados com a emissão de lavas, dependendo o grau de destruição do posicionamento do centro ou centros eruptivos e da taxa demográfica versus estruturas sócio-económicas das áreas afectadas.

Palavras-chave: vulcanismo, evolução geoquímica, erupções históricas, estilos eruptivos, perigo vulcânico

Abstract:

The evaluation of volcanic hazards at Pico island is based on the knowledge of the volcanic history, which was reconstructed by means of the identification (1) of tectonic processes that contribute to island edification; (2) eruptive styles responsible by volcanic landforms and (3) of the petrologic and geochemical features of volcanic products, as well as by descriptions of historic volcanism after the settlement, that took place on the middle XV century. Field and petrologic and geochemical data suggest that future eruptions on Pico island will be of the hawaian and strombolian styles. Possible volcanic hazards are basaltic s.l. lava flows, ballistic projections, pyroclast dispersion and fall, volcanic gases, volcanic earthquakes, lahars, central volcanic structure collapse with tsunami and phreatomagmatic activity. However, the Pico island main hazards are lava flows, and the largeness of the destruction will depend on the eruptive centre or centres location and the land use on the structures of the affected areas.

Keywords:volcanism, geochimical evolution, historical eruption, eruptive styles, hazard

1 - Introdução

O arquipélago dos Açores, situa-se no Atlântico Norte, aproximadamente a 1600 km de Portugal Continental, entre as latitudes 36º 55´ e 39º 43´N e as longitudes 24º 46´ e 31º 16´W. A distribuição oceânica destas ilhas conduziu ao estabelecimento dos seguintes agrupamentos: (1) grupo ocidental, constituído pelas ilhas das Flores e do Corvo; (2) grupo central, de que fazem parte as ilhas do Faial, Pico, São Jorge, Graciosa e Terceira e (3) grupo oriental, englobando São Miguel, Santa Maria e os ilhéus das Formigas (Fig. 1).

Geotectonicamente a região dos Açores e, consequentemente a ilha do Pico, localiza-se na proximidade do ponto triplo, assim designado por confluírem três importantes placas litosféricas: Euroasiática, Africana ou Núbia e Americana (Fig. 2).


Fig. 1 – Localização geográfica do Pico no contexto do arquipélago dos Açores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fig. 2 - Placas e acidentes tectónicos que interactuam na região dos Açores. AM - Placa Americana; EU - Placa Eurasiática; AF - Placa Africana; CMA - Crista Média-Atlântica; ZFEA - Zona de Fractura Este dos Açores; ZFWA - Zona de Fractura Oeste dos Açores; RT-  Rift da Terceira; ZFNA - Zona de Fractura Norte dos Açores; FG - Falha da Glória; MA - Microplaca dos Açores (in Nunes, 1991; modificado de Krause & Watkins, 1970; Laughton & Whitmarsh, 1974; Abdel-Monem et al., 1975; Searle, 1980; Forjaz, 1983).

O jogo de tensões resultantes desta situação peculiar gerou um complexo sistema de estruturas tectónicas que afecta de forma particular a região, definida segundo Needham e Francheteau (1974). pela curva batimétrica dos 2000 m. A partir desta zona, designada por Plataforma dos Açores, e que Laughton e Whitmarsh (1974) reconheceram ter uma forma aproximadamente triangular, sobrelevam-se as ilhas do Arquipélago dos Açores. Entre as grandes estruturas que interactuam nesta região, salientam-se a Crista Média-Atlântica, a Zona de Fractura Norte dos Açores, a Zona de Fractura Este dos Açores, a Zona de Fractura Oeste dos Açores e o Rift da Terceira (Fig. 2).

A situação peculiar das ilhas açorianas desencadeou uma série de estudos vocacionados para o esclarecimento da evolução e da situação actual do ponto triplo dos Açores, tais como, por exemplo, os de Mckenzie (1972); de Laughton e Whitmarsh (1974); de Searle (1980); de Ribeiro (1982) e de Forjaz (1983), que são consonantes relativamente (1) ao limite estabelecido pela CMA entre a placa Americana e as placas Eurasiática e Africana e (2) ao limite entre as placas Eurasiática e Africana definido pela Falha da Glória. A polémica assenta nas discrepâncias existentes relativamente ao limite entre estas duas placas, na zona que se desenvolve desde a Crista Média-Atlântica até à Falha da Glória. Tal facto conduziu ao surgimento de uma série de modelos, dos quais se refere exclusivamente o mais recente, por se considerar que uma análise mais aprofundada desta problemática se desajusta do pretendido neste trabalho imbuído de um espírito mais amplo. Neste contexto, Miranda et al. (1991), Luís et al. (1994) e Miranda et al. (1995), baseados em estudos geofísicos desenvolvidos na CMA, entre as latitudes 37ºN e 40º 30´N, e abrangendo uma área de 10 Ma de crusta oceânica para W e E daquele acidente tectónico, apontam no sentido de que o vulcanismo e a tectónica da região dos Açores têm sido controlados pelas variações de movimento entre as placas Americana, Eurasiática, Africana e a "microplaca dos Açores". Ao invés da migração directa da ZFEA para a ZFNA, proposta por Searle (1980), estes autores defendem uma migração progressiva da junção tripla (1) desde a Zona de Fractura Este dos Açores - ZFEA, para a Zona de Fractura Princesa Alice - ZFPA, num período anterior aos últimos 10 Ma; (2) da Zona de Fractura Princesa Alice para a Zona de Fractura Açor – ZFA e, actualmente, (3) desta zona para a Zona de Fractura do Faial - ZFF (Fig. 3). Apontam, ainda, estes investigadores que a recente migração do ponto triplo foi responsável pela edificação de duas das mais recentes ilhas do arquipélago - Faial e Pico - construídas sobre a ZFF, num ambiente de leaky transform (Fig. 3).

Fig. 3 - Mapa batimétrico (intervalos de 1000m) com as diferentes zonas de fractura e com a área do trajecto aeromagnético delimitada a tracejado (adaptado de Luís et al., 1994 in França, 2000).

 

 

 

 

 

 

 

                              

 

 

         

 

 

( A seguir: Análise sucinta de alguns parâmetros conducentes à reconstituição da história vulcânica da ilha do Pico )

 

                                                                              Continua