Os
livros que já não lia

Estavam guardados num caixote de
papelão e, mesmo não querendo voltar a lê-los, por razões várias não os
destruí. Julgo que nunca deixei de amar os livros, apenas andava
arredada deles.
Com a mudança para a casa do pinhal em Smooth Rock Falls, alguns foram
colocados nas prateleiras de uma velha estante. Olhava-os e por vezes
pensava o quanto me custava comprar um livrinho, naqueles tempos. Porém
fazia as minhas economias e, quando acabava de ler um, comprava outro.
Havia-os nas bibliotecas, onde os podia ler gratuitamente, contudo, para
mim, não tinham o mesmo valor, existia neles, algo mais valioso, por
serem meus de verdade. Perdi alguns ao emprestá-los e não me serem
devolvidos, fazendo-me ficar um pouco dorida com a perca deles, enfim...
Comecei por aqueles romancezinhos que, outrora, mesmo não sendo uma
linguagem fácil para mim, gostava de os ler. Lia o romance, tentava
entender o enredo, mas não lia nas entrelinhas, não procurava o
dicionário para descobrir o que queriam dizer algumas palavras que não
entendia. O importante era entender o segredo da estória.
Das “Sabrinas” passei à “Colecção Azul”. Uma escrita mais sofisticada
que me despertou a vontade de descobrir a arte de escrever. Não tenho a
certeza se aprendi muito com eles, sei que comprei vários e fizeram-me
falta quando a colecção acabou.
Quando descobri em mim, a vontade de escrever, de pôr no papel a minha
maneira de ver e sentir as coisas, os livros da “Colecção Azul” perderam
um pouco o valor que lhes atribuía. Precisava ler algo que me fizesse
analisar a minha pobre escrita com as dos grandes escritores e reflectir
sobre elas. O que diziam com respeito à minha escrita agradava-me,
todavia, era importante ser eu a descobrir o valor das minhas ideias.
Concordo com algumas pessoas, contudo, o mais importante é concordar
comigo própria.
Após essa descoberta, outros livros fizeram parte da minha pobre
biblioteca. Alguns voltei a relê-los, outros não os acabei. Quando me
falavam de algum livro considerado difícil de ler e compreender, era
esse mesmo que eu comprava; achava que, com ele, talvez aprendesse e a
verdade é que aprendi!
Comprei alguns de José Saramago, que fizeram com que perdesse ou
aproveitasse grande parte do meu tempo, tentando saber onde ele queria
chegar com as suas simples palavras, colocadas de uma forma que se
tornavam difíceis de entender. Acho que aprendi alguma coisa com elas.
Li Fernando Namora, um dos meus escritores preferidos, talvez por ser um
revoltado, tal como eu, com a injustiça humana. Li Inês Pedrosa porque,
além das belas frases, havia mistério na sua maneira de escrever, algo
que eu adorava desvendar. Li João de Melo, outro revoltado pelo mesmo
motivo do de Fernando Namora. Li Guilherme de Melo “Os leões não dormem
esta noite”, uma estória maravilhosa sobre Gungunhana e Moçambique, um
livro da colecção do meu amigo Manuel Sanches, que ele me havia legado
em vida, mas que me foi negado após a sua morte, ignorando a promessa do
falecido. (A propósito, que terá acontecido à biblioteca da antiga
Associação Democrática, para onde foram canalizados os livros do
Sanches? Espero que se encontrem em boas mãos...).
Li Mia Couto, Paulo Coelho, Dias de Melo, António dos Santos Vicente,
Acácio Januário, Aida Baptista, enfim, tantos outros que me ajudaram a
formar o gosto pela leitura e pela escrita. Li os artigos dos
colaboradores da nossa imprensa, alguns dos quais recortava dos jornais
e colocava no caixote onde ainda se encontram hoje. Aliás, tanto os
livros como os artigos foram meus companheiros por muito tempo.
Aos poucos fui perdendo o interesse pela escrita e pela leitura. Ler
para quê? Escrever o quê e para quem? - Era esta a pergunta que a mim
fazia. - Escreve para ti, diziam-me os filhos e amigos verdadeiros. -
Ora, tinha alguma graça, escrever só para mim? E, assim, aos poucos, fui
abandonando os livros, o caderno, a pena e os jornais da nossa
comunidade. Quando por acaso os encontrava nos nossos comércios,
olhava-os, mas não pegava neles. Por algum tempo, o computador serviu
para colocar artigos antigos nas páginas da Net, para trabalhar na minha
página pessoal, para “postar” fotos no Flickr, até que tudo foi morrendo
e o PC servia apenas para jogar jogos solitários. Julguei que nunca mais
escreveria, mesmo havendo alguém que confiava em mim e sempre me
incentivava para a escrita.
Hoje, por incrível que me pareça, estou escrevendo, como o consegui não
sei, por quanto tempo também não sei, espero que após este texto,
escreva mais. Voltei à leitura, leio os livros que já não lia, as
novelas que para mim, um dia, perderam um pouco do seu valor, os
romances da “Colecção Azul”. Voltei ao início para me relançar nesse
mundo que me é querido e tão longínquo, o das letras portuguesas.
Canadá, 25 de Abril de 2008
Candeias Leal
candeiasleal@hotmail.com
( Exclusivo para a Casa do Triângulo ) |