Continuação do trabalho,
que nos foi enviado, para publicação na nossa página.
Colaboração da autora, Prof.ª Dr.ª Zilda Tavares França (Geóloga).

Prof.ª Drª Zilda França
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4 – Perigos vulcânicos da ilha do Pico Algumas características específicas, relacionadas, nomeadamente, com o facto do Pico ser uma ilha muito recente, com uma idade inferior a 300.000 anos, de englobar um importante vulcão compósito, num estado embrionário de evolução geoquímica e, por outro lado de se inserir num complexo sistema vulcano-tectónico conferem a esta ilha um interesse muito peculiar. Dados de campo e de natureza petrológica e geoquímica são indiciadores de que, à semelhança do que ocorreu no passado, futuras erupções na ilha do Pico serão predominantemente dos tipos havaiano e estromboliano, caracterizadas por uma baixa a média explosividade. De entre os possíveis perigos vulcânicos a que a ilha do Pico pode estar sujeita (escoadas lávicas basálticas s.l., projecções balísticas, dispersão e queda de piroclastos, gases vulcânicos, sismos vulcânicos, lahars, colapso do edifício vulcânico central com possível tsunami associado e actividade freatomagmática) indubitavelmente os que oferecem um maior risco para a sua população estão directamente relacionados com a emissão de lavas, dependendo o grau de destruição do posicionamento do centro ou centros eruptivos e da taxa demográfica versus estruturas sócio-económicas das áreas afectadas (França, 2000; França et al., 2002). No caso vertente da emissão de uma escoada lávica, os efeitos resultantes da sua acção dependerão fundamentalmente da velocidade de progressão da sua frente, que será condicionada pela viscosidade, pela taxa de emissão, pelo volume de material emitido e pela própria topografia da área afectada. Na verdade, a velocidade é determinante para que se disponha de tempo suficiente para a concretização de todas as medidas possíveis conducentes a uma minimização dos riscos. Velocidades da ordem dos 100 Km/h foram observadas, no início da erupção de 1977, no Vulcão Nyiragongo enquanto que, na erupção de 1855 no Mauna Loa (Hawaii) foram atingidas velocidades de 64Km/h, em zonas de declives de 10 a 25º. As áreas cobertas foram, respectivamente, de 20 Km2 e de 50 Km2. Salienta-se que, no entanto, segundo Fisher et al. (1997) normalmente as velocidades e as distâncias atingidas são bastante menores. Estes parâmetros sofrem um acréscimo, nos casos em que a lava é conduzida através de barrancos ou túneis, onde o seu arrefecimento ocorre a um ritmo muito mais lento, permitindo que durante mais tempo se mantenha fluída, podendo assim atingir grandes distâncias. Na ilha do Pico muitas escoadas lávicas constituiram tubos lávicos, das mais variadas dimensões, razão pela qual se entende que esta é uma característica persistente e que, por tal deve merecer especial atenção numa futura erupção vulcânica. Por outro lado, o desenvolvimento sócio-económico actual desta ilha, com perspectivas de se ampliar bastante mais no futuro próximo, faz ressaltar aspectos relacionados com a vulnerabilidade das estruturas que possam encontrar-se em trajectos eventualmente percorridos por futuras escoadas lávicas. Assume ênfase qualquer fluxo lávico oriundo de um centro eruptivo localizado no topo da Montanha do Pico. Nesta eventualidade, o cenário poderá revestir-se de aspectos dantescos, com a escorrência de lavas pelas vertentes íngremes, que embora não constituindo uma ameaça directa sobre vidas humanas poderá sem dúvida trazer graves prejuízos para as populações distribuídas à volta da Montanha (Fig. 18A, França et al, 1999a). A possibilidade da formação de um lago de lava na cratera principal deste vulcão parece pouco provável, dado o desmantelamento de grande parte das suas paredes, o que impossibilita efectivamente a permanência de um volume significativo de lavas. No entanto, as dimensões consideráveis da cratera, com um diâmetro variando entre 550 m e 590 m, facilitarão provavelmente uma grande distribuição das lavas que se escoarão preferencialmente pelas zonas onde os bordos se apresentam a um nível mais baixo ou onde já não existem, afectando, assim, principalmente as populações situadas a NNW, ENE e a SE da Montanha. A análise cartográfica do C. V. São Roque-Piedade permite concluir que os efeitos provocados por qualquer erupção centrada no eixo deste complexo serão mais confinados e, consequentemente, com repercussões de menor impacto social (Fig. 18B, França et al, 1999a).
Fig.18 – Simulação de fluxos lávicos provenientes (A) do topo da Montanha do Pico e (B) do eixo do C.V. SR-Piedade (França et al., 1999a). Relativamente às projecções balísticas, os efeitos resultantes da projecção de blocos, de bombas ou de lapilli dependem da distância alcançada por eles e da sua velocidade de queda. A distância percorrida é controlada pela forma e dimensão do material piroclástico, bem como pela velocidade de projecção incutida pela saída dos gases na parte terminal da conduta. Em erupções basálticas, a velocidade de projecção é da ordem dos 100 m/s e as distâncias percorridas, mais habituais, são da ordem dos 5 a 20 Km (Ortiz e Araña, 1996). A velocidade de impacto é, por sua vez, função da dimensão, da densidade e da forma do projéctil. No caso das bombas basálticas, embora estas possam atingir o solo com o núcleo ainda líquido, esse factor normalmente não constitui um perigo adicional, pelo facto de, na sua trajectória, não se afastarem muito dos centros eruptivos. Os riscos humanos relacionados com a queda de bombas poderão manifestar-se por morte ou ferimentos, porém a probabilidade desta ocorrência é insignificante face à baixa frequência deste fenómeno a uma certa distância do centro eruptivo, embora, por incúria, praticamente todos os anos se constatar que inúmeras pessoas morrem vítimas do impacto de bombas vulcânicas. A projecção de lapilli, constituindo perigo menor para as vidas humanas, pode representar, no entanto, uma forte ameaça para as habitações e agricultura. Na ilha do Pico as evidências apontam no sentido de que, de uma forma geral, a propagação dos materiais das dimensões que aqui se estão a considerar raramente alcançaram grandes distâncias e cobriram grandes áreas, embora possam vir a constituir uma ameaça futura face a: (1) ao posicionamento de um novo centro eruptivo nas proximidades de uma zona de maior concentração demográfica ou de cariz agrícola importante e (2) à direcção e intensidade de ventos actuantes no momento de um possível evento vulcânico. Exceptuando estas situações, a explosividade das erupções vulcânicas da ilha do Pico mostram que os problemas relacionados com as projecções balísticas normalmente não atingirão níveis de grande preocupação. Considerando, por outro lado, a dispersão e queda de piroclastos verifica-se que este tipo de materiais é transportado nas colunas convectivas até alturas significativas, dispersando-se posteriormente por difusão e por acção do vento. Devido às suas pequenas dimensões, podem permanecer durante muito tempo na atmosfera em virtude da sua queda depender de uma velocidade limite que, por sua vez, diminui drasticamente com o tamanho das partículas. Por este facto, as áreas afectadas pela dispersão e queda de piroclastos são as mais extensas, comparativamente com as afectadas por qualquer um dos outros fenómenos vulcânicos. No caso particular das cinzas refere-se que há probabilidades de constituirem uma ameaça para as coberturas dos edifícios, na medida em que podem provocar o seu colapso. Não se pode apontar, no entanto, para espessuras críticas uma vez que os efeitos passíveis de serem observados resultam de uma série de factores, quer relacionados com as próprias estruturas em causa, quer ainda com a compactação das cinzas e/ou teores de água adsorvidos. Outros fenómenos relacionados com a queda de cinzas e para os quais se deve estar sensibilizado são: (1) a possível emanação de gases retidos nelas, que ao libertarem-se lentamente poderão provocar problemas do foro respiratório; (2) a contaminação das águas, pelo facto de poderem conter produtos tóxicos que se dissolvam nelas; (3) a impermeabilização dos solos, pela sua acumulação excessiva o que pode provocar inundações e (4) a possibilidade de provocarem grandes prejuízos em motores de aviação, veículos automóveis e equipamentos electrónicos, por serem altamente abrasivas (Ortiz e Araña, 1996). No caso específico da ilha do Pico, a possibilidade de ocorrência de mortes humanas por queda de cinzas é praticamente nula. No entanto, tendo em conta o que aconteceu por exemplo na erupção de 1720 na Silveira, onde se assinalou a morte de grande número de animais e a destruição de pomares, pastagens e searas, há fortes possibilidades de que desastres deste tipo possam ocorrer de novo (França, 2000). Outro aspecto a considerar relaciona-se com o colapso do edifício central do vulcão compósito da ilha do Pico. Ao longo da história vulcânica desta ilha verificou-se, pelo menos por duas vezes, o colapso do topo do edifício vulcânico central do estratovulcão da Montanha do Pico, pelo que a hipótese de no futuro poder voltar a acontecer um episódio similar é perfeitamente plausível. De facto, a constatação de que há um importante controle tectónico, regional e local, deste edifício vulcânico, leva a que se pondere sobre a probabilidade de uma nova ocorrência deste tipo. É, também, previsível, a uma escala geológica indeterminada, que se venha a desenvolver uma câmara magmática subjacente a este vulcão central que o poderá vir a fragilizar na sequência de algum evento vulcânico com ela relacionado. A verificar-se tal paroxismo não é de excluir a hipótese da ocorrência de um tsunami, à semelhança do que em situações idênticas tem ocorrido em outras regiões vulcânicas. CONTINUA DENTRO DE ALGUNS DIAS: "perigos inerentes aos lahars" |