D. José Vieira Alvernaz

D. José Vieira Alvernaz, a veneranda figura da Igreja missionária, bispo de Cochim, arcebispo de Goa e Damão, Patriarca das índias Orientais, nasceu na Ribeirinha, Piedade, ilha do Pico, nos Açores, a 5 de Fevereiro de 1898, onde foi baptizado. Logo após os seus estudos primários ingressou no seminário de Angra e, encerrando-se este estabelecimento de formação religiosa em 1911, quando o país entrou na República, continuou os seus estudos no liceu de Angra do Heroísmo. Alcançou a sua ordenação presbiteral em 26 de Junho de 1920, depois do que seguiu para Roma a frequentar o Pontifício Colégio Português, vindo a doutorar-se na Universidade Gregoriana em filosofia e direito canónico. A seguir, na ânsia de mais saber, matriculou-se no Instituto Católico de Ciências Sociais, de Bérgamo, conseguindo também doutoramento em Ciências Sociais, naquela cidade italiana. Regressado às ilhas dos Açores, paroquiou em Santa Luzia de Angra, por nomeação do então prelado diocesano D. António Augusto de Castro Meireles, foi director do Colégio de Sena Freitas, em Ponta Delgada (1926), onde foi "grande e profícua a sua acção, durante os quatro anos" em que esteve à frente daquele colégio. "Ainda hoje, afirma o Boletim Eclesiástico dos Açores, falam os antigos alunos do colégio, com saudade e reconhecimento, da dedicação, do espírito de sacrifício, dos conselhos acertados do sr. dr. Alvernaz. Não admira, pois, que conquistasse, apenas em quatro anos, a amizade e consideração da cidade de Ponta Delgada e, de uma maneira geral, de toda a ilha de S. Miguel. No ano de 1930 o bispo D. Guilherme Augusto nomeou-o pároco de Santa Cruz da então vila da Praia da Vitória, onde a sua obra foi "marcada por uma luz brilhante", ali também exercendo as funções da provedoria da Santa Casa da Misericórdia e se empenhou pela reedificação da igreja de Santo Cristo, que o fogo destruíra. O tempo se bem que ocupadíssimo sobrava-lhe ainda no suficiente para integrar a Comissão de Assistência Terceirense e a debater na imprensa temas polémicos como o dos baldios, o que faria com que Miguel Forjaz, homem de lides jornalísticas, o considerasse como um "ilustre ornamento do clero açoriano incontestavelmente uma das maiores figuras do jornalismo moderno. Professor do seminário de Angra, foi nomeado reitor deste estabelecimento de ensino em 1937. Como assistente da Acção Católica houve-se devotadamente, como se dizer-se, de alma e coração, interessando a juventude "sempre ávida de bem e de verdade e tão generosa nos seus empreendimentos". De início, orientou-se como mero explicador, desenvolvendo clara e concretamente o seu enorme apoio espiritual às obras existentes, passando, depois, por vontade expressa do bispos a orientar, como assistente eclesiástico esse grande Movimento que os prelados portugueses tinham acabado de fundar em toda a nação trazendo a lume as bases da Acção Católica Portuguesa. "Só Deus sabe e em que medida trabalhou o senhor D. José Vieira Alvernaz adentro da Acção Católica. Quantas conferências e palestras, reuniões e retiros espirituais... quantas reuniões de militantes e de massa... quantas visitas a secções, mesmo a pé e apesar das intempéries do tempo... que de conselhos... e dificuldades resolvidas tão carinhosamente... que persistência e amor sacrificado na defesa e dignidade das classes operárias... que vigílias de oração... e sacrifícios pela recristianização da gente destas ilhas a quem queria e amava entranhadamente". Capelão e director dos serviços sociais da Legião Portuguesa, foi ampla a sua acção e defesa dos princípios religiosos e morais. A par de tudo isso, por quatro anos teve ao seu cuidado a reitoria do seminário angrense. Quando falava fazia-o dando exemplo enquanto que, com a palavra "convencia e apontava o caminho da perfeição a seguir. A sua vida foi para os seminaristas o maior incentivo ao cumprimento do dever e à consecução do bem".

D. José Vieira Alvernaz, foi um espírito culto e muito viajado, pois os seus estudos levaram-no proveitosamente à Europa. A 13 de Agosto de 1941 Pio XII fê-lo bispo de Cochim, havendo decorrido em Lisboa as cerimónias da sua sagração a 1 de Dezembro desse ano, na Basílica dos Mártires, sob a presidência do bispo de Angra D. Guilherme Augusto da Cunha Guimarães, assistido por D. Abílio Augusto Vaz das Neves, bispo de Bragança e Miranda, e D. Manuel Ferreira da Silva, bispo titular de Gurza e superior das Missões Ultramarinas.

Passados dois meses, a 18 de Fevereiro de 1942, D. José chegava à velha Índiana companhia do seu secretário Pe. José Joaquim Neves, até então prefeito do seminário de Angra. Fazemos aqui uma ligeira referência histórica à diocese de Cochim, na Índia, aonde o serviço do Senhor chamou D. José Alvernaz. Com a cultura ocidental passaram à Índia os primeiros padres, uns seculares, outros capelães das armadas, dominicanos e franciscanos, alguns destes últimos sofreriam pouco depois da sua chegada, em Calecute, o martírio infligido pelos moiros. A primeira leva de portugueses logo levantou em Cochim a primeira igreja católica da invocação de S. Bartolomeu, situada junto e abrigada pela fortaleza, que anos mais tarde seria substituída por outra dedicada à Santa Cruz. Cochim foi até o primeiro decénio da era de Quinhentos o mais importante centro missionário português no Oriente, só passando a segundo lugar com a conquista de Goa. A Santa Casa da Misericórdia foi uma das instituições imediatamente criadas personalizando o espírito caritativo-religioso da gente portuguesa em Cochim, que em 1513 já tinha 6000 cristãos. Foi extraordinário o surto das conversões a tal ponto que até o grande Afonso de Albuquerque tentou iluminar de luz cristã o próprio soberano reinante. As cristandades do Oriente estiveram até 1514 sob a jurisdição do Dom Prior da Ordem de Cristo, que enviava até aos longínquos territórios da Índia os seus vigários-gerais. Ampla transformação se operou com a bula Pro excellenti, a qual fundou a diocese do Funchal consubstanciando nesta a enorme jurisdição das cristandades orientais, também exercida através de vigários, ali enviando a Santa Sé para crismar e ordenar comissários apostólicos, bispos titulares ou de anel, como acontecia nas ilhas dos Açores até 1534, data em que fora criada a diocese de Angra, onde os visitadores provinham do Dom Prior de Tomar considerando ainda a jurisdição funchalense enquanto arcebispado.
Com o pedido de D. João III ao Papa, foi criada a diocese de Goa sufragânea do Funchal, que se estendia a todas as terras desde o Cabo da Boa Esperança à China. Mais tarde, em 1557, foi a diocese de Goa elevada a arquidiocese metropolitana, ficando então adstritas a esta não só a de Malaca como também Cochim fundada por bula de 4 de Fevereiro de 1558 com uma área que se estendia desde a Costa do Malabar à Birmânia. Mais tarde outras dioceses foram anexadas a Goa. Foi então que os arcebispos de Goa passaram a intitular-se de Primaz, o que lhes veio a ser reconhecido por Gregório XIII em 1572, concedendo ao arcebispo de Goa o título de Primaz de todas as igrejas catedrais na Índia. A Concordata de 1886 reconheceu ao arcebispo "pro tempore" da Igreja Metropolitana e Primacial de Goa a dignidade de patriarca das Índias Orientais. Extinta que foi, em 1928, a diocese de Damão passou daí em diante o arcebispo de Goa a usar da denominação de Arcebispo de Goa e Damão, Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais, Arcebispo "ad honorem" de Granganor. Com a independência da Índia extinguiu-se o Padroado Português, que tanto e tão alto iluminara o espírito da fé no Oriente, deixando o governo de Portugal de fazer a apresentação de prelados às dioceses que até ali estiveram subordinadas ao Padroado, entre elas a de Cochim, cujo sólio era nessa altura ocupado pelo ilustrado açoriano D. José Vieira Alvernaz, que, mercê do destino foi o último prelado português de Cochim.

Como resultado destas ocorrências a Santa Sé nomeou D. José coadjutor com direito a sucessão do arcebispado de Goa e Damão iure successionis. Patriarca das Índias Orientais a 23 de Dezembro de 1950 e arcebispo titular de Anasartha, cuja posse efectivaria em 7 de Abril de 1951. Sucedeu na Sé de Goa quando da renúncia (1953) de D. José da Costa Nunes, outro emérito açoriano a quem viria a ser dado o chapéu cardinalício.

Devido à ocupação de Goa pela União Indiana, D. José Alvernaz viu-se compelido a deixar o território da sua jurisdição, passando aquela arquidiocese a ser governada sede plena a partir de 1966 por um administrador apostólico. No ano de 1946 D. José foi de visita aos Estados Unidos, viagem algo conturbada, porquanto o navio naufragaria nas proximidades do Canal do Suez. Mas ao chegar ao generoso solo americano este bispo missionário foi alvo das maiores homenagens e simpatias, não só por parte da gente portuguesa, mas, viu-se distinguido por personalidades importantes do próprio país. Nas crónicas do Pe. Leal Furtado escritas para o Correio dos Açores (5) , podemos acompanhar alguns passos do ilustre bispo de Cochim na América. Chegou ao aeroporto de Nova lorque, La Guardia Field, a 25 de Junho recebendo em East Providence no Estado de Rhode Island uma calorosa manifestação dos portugueses ali residentes. Ofereceram-lhe um banquete, forma de reunir uma grande multidão, em que participaram centenas de pessoas, todo o clero luso do lugar e dos subúrbios e que registou a presença do próprio governador do Estado, bom católico e oriundo de famílias italianas. Nesse repasto usando da palavra para a saudação o governador disse falar também em nome de todo o Estado de Rhode Island, em que os católicos irlandeses, italianos, polacos e portugueses constituíam uma grande maioria. De outra vez, por ocasião também de homenagens prestadas a D. José, o bispo diocesano, Monsenhor Jarnes Cassidey afirmou: "... tenho muito prazer em homenagear publicamente o meu irmão no episcopado, o sábio e virtuoso bispo de Cochim, cuja fama enche hoje a própria América; é meu dever também, dar, nesta ocasião, uma prova de reconhecida gratidão para com o seminário de Angra de que o nosso caríssimo visitante foi reitor insigne, abrangendo, neste mesmo acto, o ilustre bispo de Angra, senhor D. Guilherme da Cunha Guimarães, que considero verdadeiro amigo; sinto imenso prazer em estar junto de assembleia tão nobre e digna, constituída pelo meu querido povo português, que, nesta diocese, tem dado bastas provas de afecto e devoção ao seu prelado e de tanta fidelidade à Igreja Católica. Os portugueses, continua o prelado, constituem um terço da população católica da minha diocese. Tenho-lhes muito afecto, carinho, amo-os como seu pai espiritual. Esta festa não me pertence, todavia, pertence ao venerando bispo missionário, cujas virtudes e muito saber são para todos nós uma inspiração e um modelo perfeito". Todos esses actos organizados e realizados em honra do bispo de Cochim, levariam o Pe. Leal Furtado, a dizer "Temos assistido a muitas manifestações de apreço e simpatia para com personagens ilustres que se dignaram a honrar com a sua presença o povo português de Fall River, mas nunca vimos naquele lugar uma apoteose mais brilhante, mais sentida, mais calorosa". Da Nova Inglaterra passou D. José à Califórnia, mas a sua presença ao pisar terra americana ficou desde logo gravada com galhardia e modéstia bem do timbre açoriano, como bem mostrou nas suas palavras ao referir que desde que chegou à diocese de Cochim poucas vezes teve ocasião de falar em público na língua portuguesa e que por isso, já não fala bem português e ainda pior inglês, sublinhou com graça, ele que, com facilidade, pureza e mestria domina estas duas línguas. D. José, depois dos acontecimentos políticos na Índia portuguesa, voltou ao seu recanto açoriano, fixando residência na freguesia de Santa Luzia, retomando os hábitos da vida simples açoriana. E a sua figura missionária de longas barbas alvas é tanto singular a presidir cerimoniais litúrgicos, como em sociedade, ou, quando, recolhidamente, ia às "Mónicas" celebrar a sua missa. Nas Freguesias da Praia (obra já citada) Pedro de Merelim dedicou-lhe uma página, tão actual e sonora, que pedimos vênia para a repetir aqui: "O Patriarca, coerente consigo próprio, como bispo não abandona as suas ovelhas e como português abre as portas do seu paço para converter em Asilo Político, os portugueses mais responsáveis e perseguidos pelos indianos. Esta magnânima e invulgar atitude cristã, traz-lhe da parte dos então governantes portugueses dias e anos bem dificeis, vividos já no recolhimento da sua casa em Angra. Mas ainda aqui, depois de tantos dissabores ele reatou a sua missão de dar futuro aos jovens através de explicações gratuitas e um sentido de presente válido aos velhos sem presente. No ano de 1963, ao escalar Ponta Delgada as autoridades acarinham-no e um jornal escreve nessa ocasião: "A passagem por esta cidade deste bispo da Igreja dá-se depois de acontecimentos gravíssimos para a integridade pátria nas terras industânicas, com a violação dos sagrados direitos históricos e o solo das velhas leis morais abalado pela pior lava interior. O chefe espiritual de uma antiga parcela de Portugal viveu assim a agressão e a afronta, ficando ferido quase mortalmente pelo flagelo da maior dor para o seu báculo, o qual projecta na profundidade dos séculos todo o heroísmo evangelizador de uma história". Os seus conterrâneos picoenses, nomeadamente os que, como ele, nasceram e viveram na Ribeirinha do Pico, não esqueceram o bispo de Cochin erigindo-lhe um busto de bronze. Tão alto subiu o prestígio deste bispo que a celebração em 1970 das suas bodas de ouro sacerdotais efectuadas no Santuário de Fátima brilharam a um nível nacional. Os terceirenses também não foram avaros com este prelado cuja veneranda presença lhes é grata, tendo o município angrense, que já o tinha declarado Cidadão Honorário da Cidade de Angra, associando-se ao jubiloso acontecimento das suas Bodas de Ouro sacerdotais para, mais uma vez, prestar homenagem ao "homem, ao sacerdote, à figura insigne do venerando patriarca das Índias, cuja humildade, saber e disponibilidade de serviço ao próximo constituem exemplo a seguir", mais tarde enriquecendo a toponímia de Santa Luzia com o seu nome.Das suas obras indicam-se: Os problemas dos baldios na ilha Terceira; O seminário e instituições de beneficência em Angra, A quaresma e a semana santa. Faleceu no dia 13 de Março de 1986, na sua residência da Ladeira de Santa Luzia, na cidade de Angra, sendo o seu corpo trasladado, mais tarde, para o seminário daquela cidade, onde ficou em câmara ardente. O féretro passou, na manhã seguinte, à Sé Catedral, onde se realizaram solenes exéquias presididas por D. Aurélio, bispo diocesano, indo o seu corpo a sepultar no cemitério de Nossa Senhora da Conceição, em campa de família. D. José era filho de José Vieira Alvemaz e de D. Perpétua Mariana, e irmão de Monsenhor Manuel Vieira Alvernaz, que foi pároco da igreja do Sagrado Coração em Turlock, na Califómia, Estados Unidos da América do Norte.

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